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ago
09

marcha pela terra

Antes mesmo do céu ser rasgado pela vermelhidão da aurora, o murmúrio já se fazia presente ecoando sobre os ginásios e seus arredores, anunciando mais um dia de uma longa e exaustiva caminhada. Pão francês, quando muito acompanhada com um pouco de manteiga, com café servido nos garrafões de 20 litros de água nos subsidiaria para os mais de 20 km que enfrentaríamos nas próximas horas.

Malas arrumadas, separadas para entrarem no caminhão e barriga abastecida com o singelo café da manhã, os 1200 Sem Terra começam a se organizar formando duas fileiras, dividas entre as nove regionais ali presentes, dando início à Marcha Estadual de Campinas à São Paulo, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no dia 06/08.26A_0203

Sobre o asfalto da rodovia Anhanguera, em sua maioria chinelos de dedo e botinas – muitas vezes sem meias – marchavam a mando dos trabalhadores sem-terra sob o forte sol matinal, que insistia em perturbar o lado esquerdo do corpo dos marchantes acostumados a lutarem para que a pauta sobre a reforma agrária no país seja tema de discussão política no Brasil. Esta que “sempre foi tema de promessas em campanha eleitoral, mas nunca teve uma política voltada para a reforma agrária”, comenta Kelli Mafort, da Coordenação Estadual do MST.

Canções acompanhadas de batuques alegres sobre pandeiros e atabaques feitos com canos PVC anunciavam o fim do primeiro dia de caminhada, quando, ao olhar para trás, há apenas 300 metros da entrada para Vinhedo, um caminhão parado no acostamento da rodovia encontrava-se cercado pelos Sem Terra que compunham o final da marcha. Atônitos, os que mais próximo estavam do local e nada sabiam o que se passava, correram para acudir sabe-se lá o quê. A marcha até então denominada Marcha Estadual de Campinas à São Paulo, passara-se a se chamar Marcha Estadual Maria Cícera Neves, uma homenagem concedida à companheira morta aos 58 anos, da região de Iaras, atropelada pelo tal do caminhão.

A fome e o cansaço das mais de 6 horas de caminhada, nada mais significavam para os 1200 naquele momento. Fora, provavelmente, o almoço mais indigesto comido por aqueles que lutam por um pedaço de terra e seus aliados.

27A_0204Todavia, a luta para que as mais de 90000 famílias sejam assentadas em todo o Brasil, saindo do estado de miséria que as circundam e para que seus barracos feitos de lona preta nos acampamentos façam apenas parte de seus passados, não poderia perder força e muito menos descontinuar.

Na manhã seguinte, após uma homenagem póstuma à Maria Cícera, os milhares de pés voltam a pisar na rodovia Anhanguera sob a cantoria ao fundo: esse é o nosso país, essa é a nossa bandeira, é por amor essa pátria Brasil, que a gente segue em fileiras… Novamente, as duas fileiras marchavam rumo à Jundiaí.

Com gritos no qual um esbravejava, MST!, e o coro respondia, a luta é pra valer!, ou Reforma agrária, quando!? Já! Quando? Já! a marcha seguia adiante, sempre organizada em duas fileiras, um seguido do outro, com dois claros objetivos: dialogar “com a sociedade sobre a importância da reforma agrária”, por acreditar que ações como essa possa gerar um debate; e pressionar os governos Federal e Estadual para a realização da “reforma agrária com um projeto de desenvolvimento para o campo brasileiro”, afirma Kelli.

“Estamos mostrando que não estamos mortos, ainda estamos vivos”, aponta José Antônio, de 46 anos, do assentamento Milton Santos. Mesmo já conquistado seu pedaço de terra, em Americana, seu Antônio continua na luta porque “um dia alguém já marchou por mim”. Por meio de trabalhos de base nos assentamentos e acampamentos, a política da coletividade é trabalhada no “espírito de quando ainda houver um Sem Terra, eu também sou um Sem Terra”, no entanto, “mesmo que ele saia do movimento, uma semente foi plantada e pode ser disseminada em outros setores da sociedade”, acredita Kelli.

Ao final de cada marcha, por volta das 14:00 horas, nada mais era possível pensar senão em descansar, principalmente, as solas dos pés que urravam gritos latejantes; e na marmita que estava por vir, tendo em sua essência o clássico arroz com feijão, acompanhado de carne, frango ou macarrão com batata ou mandioquinha e mandioca. Apesar da dificuldade de alimentar 1200 famintos e ainda se preocupar na variação do cardápio, a equipe de 50 pessoas da cozinha acredita ter vencido os desafios, “foi difícil. Foi um desafio, mas nosso desafio foi atingido”, crê Claudete Pereira.

O início das atividades da cozinha começava às 3 horas da manhã, com a preparação do café da manhã. Logo na seqüência, às 5 horas, iniciava-se a produção do almoço, já emendando a preparação do jantar, com o encerramento das atividades à 00:00. “Tanto a cozinha quanto a marcha são fundamentais para que o movimento evolua. Me sentia como se estivesse marchando, no cuidado de preparar os alimentos”, observa Claudete.        

 Sob gritos de Vagabundos!; vão trabalhar! ou sob buzinas de apoio, sobretudo de caminhoneiros, a marcha caminhava contra a concentração de terras no Brasil, representada por mais de 40% das terras legalizadas no país serem controladas por menos de 2% dos estabelecimentos rurais, segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).31A_0208

Com o indispensável fumo de palha na boca, assim como a maioria dos Sem Terra, o acampado Luiz Donizete, de 43 anos, que jaz um dia teve o olhar sobre os Sem Terra como um bando de vagabundos, marcha para “produzir, ter um pouco de dignidade. Na firma, patrão nenhum dá dignidade”. Com uma hérnia no umbigo, sua dificuldade de arrumar emprego é ainda maior, diz: “tenho uma hérnia no umbigo e não consigo trabalho. Eles não contratam”.

A antítese entre beleza e tristeza caminha o tempo todo lado a lado. A tristeza do sofrimento causado pela pobreza, estampado nas faces violentadas pelo sol dos que ainda sonham por um pedaço de terra, peregrina ao lado dos mesmos rostos sorridentes na sensação de esperança. Ou pelo tocar da flauta doce do assentado de 10 anos, Mateus, sonorizada pela canção Cuitelinho, tirada de ouvido. Ou pelo rap de Joelysson que pede, aos “aí de cima”, uma esperança, “olhe para baixo o brilho dos olhos dessas crianças; talvez até deitado em pedaço de papelão; diz aí seu juiz; até onde vai essa discriminação?”.

Na chegada à São Paulo, o ar cinzento da cidade e o colorido da marcha contrastavam-se o tempo todo. Olhos estupefatos observavam os mais de cinco helicópteros que nos sobrevoavam, naquela segunda-feira, dia 10. Pouquíssimos eram os repórteres que estavam no solo, junto conosco. Talvez estivessem mais preocupados em mostrar o trânsito e não em realmente saber o que faziam 1200 marchantes vindo de Campinas.

A polícia os escoltava da maneira como são tratados movimentos sociais e a pobreza no país. Seus carros eram jogados para cima dos marchantes quando tinham que estreitar a marcha. As motocicletas eram aceleradas demasiadas vezes ao lado dos sem-terra antes que saíssem do lugar. Observávamos a famosa discriminação da pobreza.

Já perto do ginásio do Pacaembu, destino final dos marchantes antes de começar uma semana de atos espalhados por todo o Brasil, o centenário Luiz Beltrame compunha a vanguarda da marcha segurando a haste de bambu da bandeira do MST. Na espera da “união entre os povos”, seu Luiz acredita que o povo está “mais consciente” e almeja que tenham um coração “mais justo”.

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