15
ago
09

marcha pela terra

Antes mesmo do céu ser rasgado pela vermelhidão da aurora, o murmúrio já se fazia presente ecoando sobre os ginásios e seus arredores, anunciando mais um dia de uma longa e exaustiva caminhada. Pão francês, quando muito acompanhada com um pouco de manteiga, com café servido nos garrafões de 20 litros de água nos subsidiaria para os mais de 20 km que enfrentaríamos nas próximas horas.

Malas arrumadas, separadas para entrarem no caminhão e barriga abastecida com o singelo café da manhã, os 1200 Sem Terra começam a se organizar formando duas fileiras, dividas entre as nove regionais ali presentes, dando início à Marcha Estadual de Campinas à São Paulo, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no dia 06/08.26A_0203

Sobre o asfalto da rodovia Anhanguera, em sua maioria chinelos de dedo e botinas – muitas vezes sem meias – marchavam a mando dos trabalhadores sem-terra sob o forte sol matinal, que insistia em perturbar o lado esquerdo do corpo dos marchantes acostumados a lutarem para que a pauta sobre a reforma agrária no país seja tema de discussão política no Brasil. Esta que “sempre foi tema de promessas em campanha eleitoral, mas nunca teve uma política voltada para a reforma agrária”, comenta Kelli Mafort, da Coordenação Estadual do MST.

Canções acompanhadas de batuques alegres sobre pandeiros e atabaques feitos com canos PVC anunciavam o fim do primeiro dia de caminhada, quando, ao olhar para trás, há apenas 300 metros da entrada para Vinhedo, um caminhão parado no acostamento da rodovia encontrava-se cercado pelos Sem Terra que compunham o final da marcha. Atônitos, os que mais próximo estavam do local e nada sabiam o que se passava, correram para acudir sabe-se lá o quê. A marcha até então denominada Marcha Estadual de Campinas à São Paulo, passara-se a se chamar Marcha Estadual Maria Cícera Neves, uma homenagem concedida à companheira morta aos 58 anos, da região de Iaras, atropelada pelo tal do caminhão.

A fome e o cansaço das mais de 6 horas de caminhada, nada mais significavam para os 1200 naquele momento. Fora, provavelmente, o almoço mais indigesto comido por aqueles que lutam por um pedaço de terra e seus aliados.

27A_0204Todavia, a luta para que as mais de 90000 famílias sejam assentadas em todo o Brasil, saindo do estado de miséria que as circundam e para que seus barracos feitos de lona preta nos acampamentos façam apenas parte de seus passados, não poderia perder força e muito menos descontinuar.

Na manhã seguinte, após uma homenagem póstuma à Maria Cícera, os milhares de pés voltam a pisar na rodovia Anhanguera sob a cantoria ao fundo: esse é o nosso país, essa é a nossa bandeira, é por amor essa pátria Brasil, que a gente segue em fileiras… Novamente, as duas fileiras marchavam rumo à Jundiaí.

Com gritos no qual um esbravejava, MST!, e o coro respondia, a luta é pra valer!, ou Reforma agrária, quando!? Já! Quando? Já! a marcha seguia adiante, sempre organizada em duas fileiras, um seguido do outro, com dois claros objetivos: dialogar “com a sociedade sobre a importância da reforma agrária”, por acreditar que ações como essa possa gerar um debate; e pressionar os governos Federal e Estadual para a realização da “reforma agrária com um projeto de desenvolvimento para o campo brasileiro”, afirma Kelli.

“Estamos mostrando que não estamos mortos, ainda estamos vivos”, aponta José Antônio, de 46 anos, do assentamento Milton Santos. Mesmo já conquistado seu pedaço de terra, em Americana, seu Antônio continua na luta porque “um dia alguém já marchou por mim”. Por meio de trabalhos de base nos assentamentos e acampamentos, a política da coletividade é trabalhada no “espírito de quando ainda houver um Sem Terra, eu também sou um Sem Terra”, no entanto, “mesmo que ele saia do movimento, uma semente foi plantada e pode ser disseminada em outros setores da sociedade”, acredita Kelli.

Ao final de cada marcha, por volta das 14:00 horas, nada mais era possível pensar senão em descansar, principalmente, as solas dos pés que urravam gritos latejantes; e na marmita que estava por vir, tendo em sua essência o clássico arroz com feijão, acompanhado de carne, frango ou macarrão com batata ou mandioquinha e mandioca. Apesar da dificuldade de alimentar 1200 famintos e ainda se preocupar na variação do cardápio, a equipe de 50 pessoas da cozinha acredita ter vencido os desafios, “foi difícil. Foi um desafio, mas nosso desafio foi atingido”, crê Claudete Pereira.

O início das atividades da cozinha começava às 3 horas da manhã, com a preparação do café da manhã. Logo na seqüência, às 5 horas, iniciava-se a produção do almoço, já emendando a preparação do jantar, com o encerramento das atividades à 00:00. “Tanto a cozinha quanto a marcha são fundamentais para que o movimento evolua. Me sentia como se estivesse marchando, no cuidado de preparar os alimentos”, observa Claudete.        

 Sob gritos de Vagabundos!; vão trabalhar! ou sob buzinas de apoio, sobretudo de caminhoneiros, a marcha caminhava contra a concentração de terras no Brasil, representada por mais de 40% das terras legalizadas no país serem controladas por menos de 2% dos estabelecimentos rurais, segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).31A_0208

Com o indispensável fumo de palha na boca, assim como a maioria dos Sem Terra, o acampado Luiz Donizete, de 43 anos, que jaz um dia teve o olhar sobre os Sem Terra como um bando de vagabundos, marcha para “produzir, ter um pouco de dignidade. Na firma, patrão nenhum dá dignidade”. Com uma hérnia no umbigo, sua dificuldade de arrumar emprego é ainda maior, diz: “tenho uma hérnia no umbigo e não consigo trabalho. Eles não contratam”.

A antítese entre beleza e tristeza caminha o tempo todo lado a lado. A tristeza do sofrimento causado pela pobreza, estampado nas faces violentadas pelo sol dos que ainda sonham por um pedaço de terra, peregrina ao lado dos mesmos rostos sorridentes na sensação de esperança. Ou pelo tocar da flauta doce do assentado de 10 anos, Mateus, sonorizada pela canção Cuitelinho, tirada de ouvido. Ou pelo rap de Joelysson que pede, aos “aí de cima”, uma esperança, “olhe para baixo o brilho dos olhos dessas crianças; talvez até deitado em pedaço de papelão; diz aí seu juiz; até onde vai essa discriminação?”.

Na chegada à São Paulo, o ar cinzento da cidade e o colorido da marcha contrastavam-se o tempo todo. Olhos estupefatos observavam os mais de cinco helicópteros que nos sobrevoavam, naquela segunda-feira, dia 10. Pouquíssimos eram os repórteres que estavam no solo, junto conosco. Talvez estivessem mais preocupados em mostrar o trânsito e não em realmente saber o que faziam 1200 marchantes vindo de Campinas.

A polícia os escoltava da maneira como são tratados movimentos sociais e a pobreza no país. Seus carros eram jogados para cima dos marchantes quando tinham que estreitar a marcha. As motocicletas eram aceleradas demasiadas vezes ao lado dos sem-terra antes que saíssem do lugar. Observávamos a famosa discriminação da pobreza.

Já perto do ginásio do Pacaembu, destino final dos marchantes antes de começar uma semana de atos espalhados por todo o Brasil, o centenário Luiz Beltrame compunha a vanguarda da marcha segurando a haste de bambu da bandeira do MST. Na espera da “união entre os povos”, seu Luiz acredita que o povo está “mais consciente” e almeja que tenham um coração “mais justo”.

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26
jul
09

O resgate ao espaço público

Os dedos do esbelto senhor Wilson beijavam as sete cordas de seu violão. Os mais de 60 anos de prática do instrumento permitem o leve deslizamento entre uma casa e outra. “Já era para ter aprendido”, brinca com um leve sorriso de quem parece levar consigo durante os longos anos de sua existência, a eterna timidez que não parece ser mais possível de irromper. 

Os que circundam ao redor apreciam a suave melodia de um choro que sonoriza, por meio de um violão, um cavaco, flauta transversal, clarinete e um pandeiro, o passeio dos que freqüentam, aos sábados, a feira da Praça Benedito Calixto. “Você pode observar que tem sempre grupos de pessoas que se conhecem. É um ponto de encontro de muita gente”, observa Wilson. 

Alguns metros acima, na mesma praça, a “profetização” dos poemas de Tula Pilar se engloba na essência do Espaço Plínio Márquez, dedicado ao nome de Autor na Praça, a acender espaço a artistas não tão conhecidos num mundo calcado pela régia do capital. “É fundamental o povo concatenar. Faz 10 anos que O Autor na Praça traz outro público, que não é o que geralmente freqüenta a feira”, comenta a poetiza de “eternos” 29 anos ao destacar o elevado preço dos objetos por lá comercializado, observando que “fica mais a elite curtindo a feira, mas tem essa arte para mesclar o povo. É poeta, fotógrafo, cineasta. A poesia, o sarau traz o povo para cá”.

Já na tradicional Vila Madalena, a roda de samba torna-se a maestria que rege a orquestra composta pelas vozes do público que o acompanha, todas as tardes do último domingo de cada mês. Isso logo após a habitual feijoada, também na mesma Praça Aprendiz, feita pelas “Tias” baianas. “Você conhece todo mundo, isso já se tornou uma espécie de tradição para muitas pessoas que freqüentam esse espaço”, fala aos seus 60 anos e com 70 de samba Zé Maria, um dos integrantes da Ala dos Compositores do Kilombolo. A “família que se amplia cada vez mais”, nas palavras de Renato Diaz, um dos fundadores do Kilombolo, resgata sambistas que foram excluídos da pequena grande panela do típico som nacional, assim como lembra Zé Maria. O alegre sambista Toinho, assim como Zé Maria, deixara a arte de lado por algum tempo, mesmo com a experiência de quase seis décadas de vida, fruto de uma desilusão com o mundo do samba. “Parei de compor, de ir às rodas, mas já faz um tempo que voltei e isso que acontece aqui é maravilhoso; o resgate de antigos sambistas com a junção de jovens músicos que tocam com a gente”, diz Toinho após uma baforada e outra de seu cigarro.

A suave voz de Marisa Brito faz crianças e adultos dançarem no meio da Praça dos Omaguás, ao som experimental com certa base de funk do grupo Euterpia, de Belém do Pará. No dia em que Deus se deu ao luxo do descanso, “as pessoas vêm num outro clima. Nesses eventos elas ficam mais acessíveis. Conseguimos ter essa proximidade maior, integrar mais as pessoas. Elas dançam, ficam mais descontraídas”, observa Marisa. “Não só o artesanto, mas outras formas de expressão artística” há sete anos, fora o cerne à idéia de um grupo unir arte e artesanato, afirma Norma Nacsa. “Fizemos mais do que um ponto de comérico, fizemos amigos e um ponto de encontro para as pessoas”, complementa a organizadora.  

A gratuidade é um dos pontos em comum entre tais eventos.  Todavia, a essência está na possibilidade de poder “mostrar sua música para todos os tipos de pessoas. Porque às vezes a gente toca em lugar fechado que já é um segmento só de pessoas” comenta Marisa. Além desses “espaços livres” terem o poder de mesclar as diferentes classes sociais que os freqüentam, como defende Tula. “O resgate da humanidade é com essa mescla através da arte, da literatura, do teatro, do cinema”, promulga a poetiza.

05
jun
09

um obrigado à civilização européia

“Dizem que até as ferraduras dos cavalos eram de prata, no auge da cidade de Potosí. De prata eram os altares das igrejas e as asas dos querubins nas procissões: em 1658, para celebração do Corpus Christi, as ruas das cidades foram desempedradas, da matriz até a igreja de Recoletos, e totalmente cobertas com barras de prata.” [1]

Jaz um dia fora a cidade mais rica do mundo, com população ultrapassando, em dez vezes, a cidade de Boston, tempos antes que Nova York fosse reconhecida como tal, lá pelo século XVI, alcançando o contingente londrino.33KGJCATCP1SKCAFDJFQ8CA210YX0CA2JB3CCCAEBRGRJCAXGJVSYCAEY0YQDCAWI9NC5CAW3MU4LCA64Q67TCAGEQUT5CAVL6V14CA6L8SQ5CATWLCS4CA0V3KPPCASH3PC7CA0RPZFSCA1JOJBK

Numa forma de cone perfeito, nascida entre os cumes das serras, a ingênua montanha responsável, num futuro não muito distante, por trazer a antítese entre a felicidade e desgraça, riqueza e miséria, farturas acompanhadas por mares de sangue, tivera seus brilhantes filamentos descobertos antes que aqueles senhores brancos, muitos com pelos na cara e uma quantidade enorme de tecidos cobrindo por inteiro seus corpos, o desvendassem.   

Fora um “rei” inca que soubera sobre as formosuras existentes ao pé da estrondosa elevação causada pelo “simples” encontro entre duas placas tectônicas. Utilizara suas pedras preciosas e sues ricos metais para embelezar O Templo do Sol em Cuzco. Nada saía das redondezas. Os valores agregados aos preciosos não eram para comercializar e sim para adorar os Deuses.

Por sorte o medo o obrigara a abandonar o monte quando soube que esta pertencia aos que vinham de longe, pois a reserva já estava demarcada pelos Deuses. Não tardara muito para que tais indivíduos do ultramar chegassem ao local e transformassem a protuberância no seu mais novo negócio lucrativo.

“Era possível construir uma ponte de prata desde o cume da montanha até a porta do palácio real do outro lado do oceano”, fantasiavam alguns escritores bolivianos da época. Os 185 mil quilos de ouro juntamente com os 16 MILHÕES de quilos de prata, que chegaram à Espanha entre 1503 e 1660, não só estimularam o comércio europeu como o tornaram possível. O total da reserva européia de prata tornara-se vergonhosa perto da quantidade três vezes maior que chegara à Espanha em pouco mais de um século e meio após a descoberta de Potosí.  

O sorriso nas feições dos de pele branca se contrastava com os rios de sangue que corriam das peles dos vermelhos. A felicidade e o progresso dos “civilizados” se davam graças à superexploração dos “selvagens”. A diferenciação entre os valores, calcados nas distinções culturais tornara-se possível, paralelamente ao não conhecimento do ferro e da pólvora e regido por estes, o maior genocídio já vivenciado em toda a história humana.

Momentos de glória em tempos remotos se transformam posteriormente nas maiores desgraças de uma população, quando nos referimos às relações “metrópole-colônia”, ao longo da história da América Latina. As regiões que um dia tiveram maiores proximidades nas sucessivas explorações pelos europeus ou, posteriormente pelos americanos, sendo as maiores exportadoras de bens com períodos de auge, por conseguinte, são, nos dias atuais, as que mais apresentam um nível de subdesenvolvimento e miséria. [2]  Potosí não foge a regra.

O departamento mais miserável num dos países mais pobres da América Latina e Caribe poderia vangloriar-se por ser um dos maiores fomentadores de riqueza e progresso da História Moderna, e dizer “De nada” aos seus colegas europeus, se isso não fosse completamente inútil.

Usurparam os bens naturais. Largaram a tristeza da pobreza. É “a cidade que mais deu ao mundo e a que menos tem”, bem como comenta uma velha senhora potosina. Os diamantes foram levados pelas espadas dos cavaleiros que retribuíram com as primeiras colocações das regiões mais pobres do planeta.

160 mil habitantes em seu apogeu transformara-se em apenas 8 mil na metade do século XIX, decorrente dos escorrimentos das lágrimas de prata. (população por volta de 200 mil nos dias atuais).  

O já um dia o “nervo principal do reino” espanhol suplica por ajuda que, do desenfreado massacre populacional decorrência da inescrupulosa corrida pelo ouro, vive hoje uma outra maneira de assassinato: o cotidiano genocídio da miséria.            

 


[1] GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina

[2] Estudo feito por André Gunder Frank, Capitalism and underdevelopment in Latin Americ.

03
maio
09

efêmera nostalgia

Há horas o crepúsculo já não mais dava as caras pela cidade de São Paulo. Aliás, muito mais perto de surgir na imensidão escura era a tal da aurora, dominada pelo sentimento angustiante em querer aparecer naquela madrugada do dia 3 de maio de 2009. As centenas, ou melhor, os milhares de homo sapiens que por ali circulavam esperavam ansiosamente umas das principais atrações desta Virada Cultural paulistana.

 Os ponteiros já estavam parados na casa das 3 horas da manhã quando, regido pelo músico Bnegão, – no palco da Avenida São João, que jaz recebera horas antes a Orquestra Sinfônica Municipal e Jon Lord, Geraldo Azevedo e Marcelo Camelo – um tributo ao Tim Maia estava próximo de ser realizado com as músicas do álbum Tim Maia Racional, de 1975.  

 Da existência de tal show, muitos já sabiam. Da espetacularidade do álbum Racional, discussão indiscutível. Todavia, a angústia gerada pela curiosidade do que estaria por vir era o motivava a inquietude dos mais apreciadores de tal som não se permitia ir embora.

 Expectativas superadas. Os movimentos e atitudes delirantes dos seres que acompanhavam a extraordinária mescla do funk com soul, orquestrada pelos arranjos muito próximos do original, permitia a abertura dos portões para adentrar no mundo “extasiante”, sob o som do relaxante vocal Imunização Racional (Que Beleza).

 Indivíduos costumeiramente diferenciados por letras do alfabeto dividiam o mesmo espaço compartilhando sensações e prazeres semelhantes diante de um mesmo fato. Posto afora os preceitos que, por algum motivo, segregam um ser do outro.

 Chegara o momento em que o nirvana fazia-se presente durante os mais de quinze minutos da música que representa a essência do álbum: Cultura Racional. Seqüenciada por Ela Partiu, não tão surpreendente, tampouco menosprezando sua fascinação, começa, ao fundo sob a melodia desta, a primeira parte de Um Homem na Estrada, da banda Racionais.

 “Obrigado!”. Alguns minutos depois desta palavra, responsável por destoar o que estava acontecendo, a triste e imprescindível sensação de voltar à tona amargurava o tal do deslumbramento. Fim do show. Tristeza e felicidade lado a lado configuravam a antítese sensorial.

Ah! Finalmente. Eis a aurora aparecendo com esse ‘in’descritível sorriso facial.

07
mar
09

um percurso nem tão clássico assim

A viagem começara, realmente, ao chegarmos em Porto Quijarro, na Bolívia, cidade divisa com Corumbá, Mato Grosso do Sul. Ali teríamos que pegar, rumo a Santa Cruz de La Sierra, o famoso e velho “Trem da Morte” – leva este nome por, em tempos remotos ainda quando cruzava o Brasil com destino à São Paulo, muitos descarrilamentos aconteciam ao longo de seu percurso. Outro motivo do nome é o fato de ter sido o meio de transporte responsável por levar cadáveres de indivíduos que morriam de febre-amarela. Obviamente, nos dias atuais, tal perigo está extinto, tendo desde classes cujas poltronas são como bancos de praça, até leitos com ar condicionado e jantar. No entanto, não havia mais passagem para o trem naquele domingo e só as conseguiríamos para a próxima quarta – feira.

Porto Quijarro   Era praticamente consenso entre o grupo de cinco jovens que por ali viajavam juntos que, naquele verdadeiro inferno na terra, onde a criança chora e a mãe não ouve, não ficaríamos por mais três dias. Pacata, pequena, sem infra-estrutura, com ruas de terra e um calor estrondoso, Porto Quijarro tem por volta de quinze mil habitantes, uma cidade extremamente pobre, com a impressão de ter sido completamente abandonada ao longo dos anos pelos governos que pelo país transitaram. Partimos, portanto, em busca de um transporte alternativo. Entre nós havia um descendente de boliviano que já fora para a Bolívia algumas vezes visitar seus parentes e conhecia uma outra maneira de se chegar à Santa Cruz. Por meio de um ônibus. Coincidentemente, este indivíduo era o único que pensava na possibilidade de aguardar o trem até quarta – feira. Por já ter feito e saber como funcionava o esquema do ônibus, havia prometido a si mesmo que nunca mais faria aquele percurso desta maneira. Todavia, o tempo que tínhamos era curto e não podíamos nos dar ao luxo de perder preciosos dias.O Tenebroso

Duas, três quadras abaixo da estação de trem ficava a “rodoviária”, uma espécie de um galpão quadrangular enorme. Após negociarmos os preços das passagens, pois estava mais caro que uma boa classe de trem, conseguindo baixar 50 pesos de 150 iniciais – a famosa lei da economia, oferta e procura, tampouco deixava de reinar naquele local, pois em média, a passagem do ônibus custa em torno de 60 bolivianos – fomos conhecer nosso futuro meio de transporte. Azul, com desenhos laterais, bagageiro no teto e um retrovisor remendado com fita crepe, remetia a um ônibus hippie dos anos 70.

Seguindo o conselho do já experiente em tal percurso, não nos restava mais nada a fazer senão nos embriagarmos em cerveja para tentar tornar a viagem um pouco mais tranqüila. Na venda que comercializava a cerveja mais barata, problema este que enfrentaríamos ao longo da viagem, por ser uma bebida relativamente cara na Bolívia, nos aconchegamos na sarjeta com um grupo de outros três brasileiros que conhecemos na vinda e começamos a tomar o que seria nossa salvação por pelo menos algumas horas. Bêbados locais, com o tempo, aproximavam-se de nós, como qualquer outro lugar.

Resguardado na inconsciência de cada um, passava-se o desejo de estagnar o tempo, a fim de adiar o problema que sabíamos estar por vir. Mas infelizmente, a fase tecnológica em que nossa sociedade se encontra ainda não nos permite tal feito. Partimos para o irremediável, porém, necessário. Fomos todos em direção ao ônibus, felizes e sorridentes, inclusive nossos novos amigos já alcoolizados de antemão.

Após colocarmos nossas malas no bagageiro, tirar fotografias com nossos novos companheiros e nos despedirmos, fomos surpreendidos ao saber que nosso ônibus não ligava. O santo álcool já estava sendo útil antes mesmo de iniciar a viagem. Algo que em outros momentos poderia ter sido tenebroso, desagradável, aborrecedor, foi, para nós, no entanto, uma tarefa bem divertida e prazerosa para a ocasião, confesso. Demos ré, manobramos, colocamos em linha reta com a estrada e o empurramos por mais alguns minutos. A todo o momento nos remetia uma felicidade sem explicação, talvez por toda situação em que nos encontrávamos e, acima de tudo, por sentirmos que estava começando uma viagem única e inesquecível.100_16711

       Uma pena que felicidade de bêbado dure pouco. Passado algumas horas e depois de ter dado uma dormidinha, o efeito da droga já terminara. Do céu ao inferno em apenas algumas horas e uns quilômetros dentro de um veículo em que, o espaço para suas pernas entre a sua cadeira e a da frente é mínimo para uma pessoa de quase um metro e oitenta. Esmagadoramente, o corpo une-se ao do parceiro ao lado formando-se um só. A poltrona é estofada por uma singela espessura de espuma, insuficiente para conter os dolorosos gritos dos glúteos após algumas horas. Não sei qual era o melhor local. Se era como estávamos, ou como algumas outras pessoas que passaram a maior parte da viagem em pé ou deitados no chão. Tudo isso refrigerado pelo refrescante ar empoeirado que entrava pela janela a uma temperatura de uns quase 30°C. Mas tudo bem. Apenas dezessete horas nos separam de nosso destino por uma estrada que 2/3 são de terra.

Uma longa e plana vegetação pantanosa nos acompanhava ao longo da estrada. Na densa escuridão madrugada adentro, apenas a luz da lua, das estrelas e o rastro do farol que o ônibus iluminava nos permitia enxergar, um pouco, por onde passávamos. No meio da estrada, o nada. Apenas um solitário veículo movido a diesel com uns quarenta e poucos homo sapiens dentro destoavam a paz do silêncio por onde se passava. Uma sensação de insignificância, remediando num atonicismo no meio daquela monstruosidade invisível, paradoxalmente, era responsável por fomentar momentos de paz e reflexões internas. Estava em jogo um conflito contraditório entre a “solidão” prazerosa e a amargura do desconforto.

Paramos, de repente, em uma pequena casa construída no meio da estrada. Este seria o lugar no qual nos alimentaríamos e a única parada programada ao longo da viagem. Arroz, carne, batata frita e um pouco de salada era o menu do local. Para servir tais alimentos, utiliza-se a mão. Todavia, a simplicidade do ambiente não tirava o mérito da gostosa comida fornecida.  Após a refeição, ainda com um tempo livre antes da partida do ônibus – este permaneceu ligado durante toda parada para não correr o risco de não funcionar mais – fomos para o meio da estrada para fazer o desjejum. Sem luz artificial alguma, o céu, encoberto pelas estrelas, encontrava-se em disputa com estas com a finalidade de arranjar algum espaço para se poder fazer ver.

Estrada Estrada 

Quando alguém, por exemplo, é fortemente levado a situações duradouras de sofrimento, além do que se está acostumado e quando tais estímulos cessam de repente, não há o sentimento de uma mera sensação apática. A suspensão da dor é vivenciada por um prazer autêntico. É como diz um verbete: “Hoje farei feliz meu cão: primeiro o espancarei, depois pararei de bater.” Creio que tal idéia é o suficiente para expressar a sensação ao sairmos daquela máquina, tanto xingada por nós naquelas últimas horas, ao chegarmos em Santa Cruz pela manhã. 

A poeira, ao longo do percurso, permitiu com que todas as malas, no final, perdessem suas singularidades tornando-se homogêneas. Mal era possível reconhecer cada uma daquelas mochilas amarronzadas. Os cabelos, assim como as roupas, estavam petrificados. Travadas num ângulo de 90° durante horas, nossas pernas não mais nos obedeciam.

Após o eterno suplício de dezoito horas – vivenciado apenas uma vez, há quem faça isso direto – duas coisas serviram de lição: primeiro que o álcool, muitas vezes, torna-se fundamental. Segundo que, NUNCA MAIS farei tal percurso desta maneira até uma próxima oportunidade.

02
fev
09

um dia para entrar na história

Ainda quando o crepúsculo reinava no céu de La Paz, horas antes da aparição de Evo Morales na sacada do Palácio do Governo, a Praça Murillo – onde este se encontra – estava predominantemente composta por dois seres distintos. Turistas argentinos e pombos (a existência maciça destas criaturas deve-se a insistente alimentação feita pela população local). Ansiosos esperando o aparecimento do presidente da Bolívia, gritos e cantos enaltecendo Evo já começam a ser ensaiados pelos argentinos simpatizantes de suas idéias. Tempos depois, quando a escuridão já se sobrepunha aos últimos raios solares, o contraste entre diferentes etnias começava, cada vez mais, a vigorar naquele dia em que, não só para bolivianos, mas também para o resto do mundo, o poder do acontecimento será responsável por se eternizar na história.

Bolivianos na Praça Murilo Bolivianos na Praça Murilo 

 

Neste dia, 25 de janeiro de 2009, acontecera um referendo responsável por levar duas questões à população local. A principal referia-se a nova Constituição da Bolívia. Paralelamente, o povo boliviano decidiria, também, em quanto deveria limitar a quantidade máxima de terra por pessoa, cinco ou dez mil hectares. Como em todo país dito democrático se prevaleceu a vontade da maioria. E esta maioria, 61%, foi responsável em implementar uma nova Constituição para vigorar na Bolívia, contra 38,5% contrários a ela. Em relação ao tamanho dos latifúndios, uma lavada de 80% optou pela quantidade máxima de cinco mil hectares por indivíduo.

Até aí, tudo parece lindo e maravilhoso, simples de compreender… Não fosse uma oposição derrotada incapaz de aceitar a legitimidade do referendo que fora avaliado por centenas de observadores internacionais da Organização dos Estados Americanos, da União Européia, do Mercosul, entre outras. Os resistentes à nova Constituição, já de antemão, recusa implementá-la nos departamentos dirigido por eles. A infantilização deste grupo é acompanhada por ismos que os precedem. O egoísmo, o charlatanismo, os cegam – ou pelo menos parecem cegá-los -, impossibilitando-os de enxergar a vontade de um povo que, finalmente, está bradando por algo há muito preso em suas cordas vocais: por liberdade. Tentam justificar suas posições utilizando-se do barato argumento de que em seus departamentos – conhecidos como Meia Lua, responsáveis por fazerem oposição ao governo – o voto contrário à Constituição foi vencedor. Realmente. Em  Santa Cruz, em torno de 63% votou não. Em Tarija, 65% da população também não era favorável a nova Constituição. Todavia, constituição é um documento de âmbito nacional, de tal forma que todo território de certo país é submisso a ela. De modo que se a grande maioria (permita-me a redundância) é a seu favor, não há discussão em relação a sua legitimidade. Além do mais, a construção de um país ocorre conjuntamente e não no “cada um por si e Deus contra todos”.

 Inescrupulosos pensamentos permeiam parte da oposição boliviano e seus seguidores. “Visa para collas¹”, “ passaporte para collas” são pichações comuns de se ver pelas ruas nas paredes do departamento mais rico da Bolívia, Santa Cruz, com a população predominantemente composta por brancos descendentes de europeus. É nítida a perigosa polarização que está ocorrendo num dos países mais pobres da América Latina. Conversando com a população de Santa Cruz, é possível encontrar aqueles que não só acreditam, mas que já estão até preparados para uma possível guerra civil.

 É a soberania de um povo ameaçada por uma minoria que acredita em uma superioridade, e se utiliza desse argumento, mascaradamente, até certo ponto, para fazer jus à economia mais forte de seu departamento, esquecendo-se de diversos fatores que contribuíram (e contribuem) para tal discrepância, como fatores geográficos: pela existência de gás natural e petróleo, a qualidade superior do solo, fazendo com que tais regiões consigam produzir uma maior quantidade de emprego, riqueza, etc. Fatores políticos responsáveis pelo não investimento proporcionalmente igualitário as necessidades das diferentes regiões do país, entre outros.   

 Resta-nos esperar o desenrolar desse enredo em que a antítese da beleza e da tristeza caminha paralelamente. De um lado, a beleza de um povo que briga por seu reconhecimento, nunca estando tão próximo desse feito. Do outro, a tristeza de ter a possibilidade de que este continue com algumas poucas mãos em seu pescoço sufocando-o até sabe-se lá quando. No entanto, a vitória está na esperança de uma breve e tranqüila consolidação e solidificação da já gloriosa conquista destes tais collas.      

 

1. Maneira pela qual os descendentes de índios são chamados.